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UM GESTO DE HONESTIDADE

26 de agosto de 2020

Aposentada perdeu R$ 850,00 no transporte coletivo e trabalhadores encontraram e devolveram a quantia

Uma simples ida ao Centro da cidade para comprar uma máquina de lavar roupa terminou em uma bonita
história de bom caráter e empatia. Irizema Aldrighi, 71, depois de cinco meses sem sair da volta de casa
devido à pandemia do coronavírus, precisou ir até uma loja comprar o eletrodoméstico que havia
estragado. A aposentada levava consigo R$ 850, 00, quantia que - depois de optar por parcelar o valor do
bem - deveria retornar com ela para casa. Mas no trajeto de volta, em um ônibus da linha Py Crespo, o
dinheiro foi esquecido. O inesperado da história - mas que não deveria ser - é que os trabalhadores do
transporte, Rogil e Jean, entraram em contato com Irizema para devolver a carteira com o dinheiro e
documentos.
Ela acredita que tenha deixado cair a carteira no momento em que procurava o cartão que permite a
passagem no ônibus. Mas depois disso, já em casa e ansiosa pela entrega, o telefone tocou e a surpresa
aconteceu. “Era um moço ligando perguntando se eu não tinha perdido nada”, contou. Na hora, Irizema
respondeu que não, mas em seguida percebeu que a carteira não estava na bolsa, então, deslocou-se até o
final da linha para buscar os pertences. “Não pegaram um tostão meu”, disse, agradecida pelo ato de
honestidade dos trabalhadores. O sentimento que resume os últimas dias da aposentada é gratidão. “Eu
agradeço de coração, hoje é muito difícil alguém achar dinheiro e devolver”, falou, emocionada. Para ela,
que em uma folha de papel anotou o telefone da dupla para agradecer melhor, a única certeza é que Rogil
e Jean são homens de bom coração.
Já para o motorista Rogil Manetti, 38, e o cobrador Jean Gutierres, 24, o ato da devolução não foi nada mais
que uma questão de obrigação. “Independente do que eu encontrar eu vou sempre devolver, é questão de
caráter”, disse Gutierres. Não é a primeira vez que os trabalhadores encontram pertences nas
dependências do ônibus. Celulares, carteiras e material escolar são os mais achados, porém confessaram
que uma quantia maior de dinheiro foi a primeira vez. “Qualquer coisa que achamos entregamos na hora
para a fiscalização, assim eles tentam fazer contato com o proprietário”, explicou Manetti.
O cobrador foi o primeiro a enxergar o pertence e confessou ter ficado surpreso em encontrar, pois muitos
passageiros já haviam passado depois que Irizema desceu. “Estava no chão, próximo à catraca”. Mesmo
que durante a jornada de trabalho tenha sido a primeira vez a encontrar uma grande quantia, o jovem
relembrou que na adolescência, no trajeto para o colégio, achou um salário mínimo enrolado em um papel
e guardou por uma semana até encontrar o dono. “Eu nem trabalhava ainda e em seguida desse episódio
consegui meu emprego e já estou aqui há mais de quatro anos”, completou. Manetti já esteve do outro
lado da história e relembrou quando esqueceu um celular em um caixa de supermercado e foi
surpreendido pelo segurança indo atrás dele para devolver. “A gente precisa se colocar no lugar do outro”,
afirmou.
Ambos trabalhadores já passaram pelo processo de redução de jornada, o que implica em participar do
projeto do governo federal que se responsabiliza por 70% do salário e a empresa por 30%. Nesse acordo,
eles trabalhavam apenas nove dias por mês, ou seja, recebiam equivalente a isso. Com a esposa grávida e
um filho pequeno, Manetti conta que ficou quatro meses recebendo menos e que o início foi complicado,
então, algumas adaptações precisaram ser feitas para manter a organização financeira em casa. “Mas está
difícil para todo mundo, patrão e empregado”, disse, mas já contente por ter retornado à jornada integral
no início da semana. Para Gutierres, a situação não foi diferente. Acostumado a receber por dezena, o
cobrador precisou organizar e reduzir as despesas para enfrentar o período atípico. “Mas já retornei mês
passado e agora a situação está melhor”, relatou.
Mesmo diante de todas as dificuldades e crise histórica que o país enfrenta, o caráter de muitos brasileiros,
assim como o de Rogil e Jean, não estão à venda. Com a consciência tranquila, eles retornaram ao trabalho
logo após conversarem com a reportagem e a noite sabem que desfrutaram de uma sentimento que, com
certeza, para eles não é novidade: cabeça tranquila no travesseiro. Enquanto isso, na Santa Terezinha,
Irizema esbanjava gratidão e aproveitava o novo eletrodoméstico.

Por: Rafaela Rosa

rafaela.rosa@diariopopular.com.br

Fonte:Diário Popular